| Contemplando a zangada esquerda |
| Notícias - Sociedade e Cultura |
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| Escrito por Roí Beit Levi entrevista Pilar Rahola para o Haaretz. Publicado no Haaretz em 17.10.2008, suplemento "A Semana", pag.10 | ||||||||
| Qua, 24 de Junho de 2009 | ||||||||
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Na última hora do entardecer responde à chamada telefônica de seu automóvel, a caminho de sua casa desde o estúdio de rádio. No seu "quarto de guerra" móvel ela trava duas batalhas: de um lado luta com o trânsito sobrecarregado de Barcelona no meio da semana, e por outro lado, na medida de suas forças faz todo o possível para continuar defendendo o bom nome de Israel: uma meta não menos desafiadora. Pilar Rahola, jornalista e política espanhola catalã, que na próxima semana fará cinqüenta anos, é uma das vozes mais entusiastas e importantes no mundo de fala espanhola no que se refere à discussão pública do conflito palestino-israelense. Escreve três artigos semanais no jornal barcelonês La Vanguardia, de ampla difusão nos setores da esquerda, publica artigos nos principais periódicos da Argentina e do Chile. Participa como integrante do painel num programa político da televisão catalã e no programa semanal de TV da rede Antena 3 espanhola, intervém em diversos programas radiofônicos e dirige um blog muito ativo (www.pilarrahola.com). Além disso, um programa satírico de televisão tem apresentado uma boneca com sua imagem. Cerca de 500 milhões de pessoas de fala espanhola se vêem expostos, quase todos os dias, a notícias distorcidas e unilaterais sobre o conflito do Oriente Médio e a críticas acérrimas, virulentas, mal-intencionadas e tendenciosas em tudo o que faz ao agir Israel na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Somente um punhado de homens públicos e de jornalistas aborda o conflito com mais equilíbrio. E Pilar Rahola, à diferença de muitos deles, não o faz por razões religiosas. Não é judia, e por isso não pode ser suspeita de alinhar-se automaticamente com o povo judeu. Define-se a si própria como mulher firme de esquerda e como católica não crente. Por isso, está isenta do ardor messiânico-direitista que — também a olhos dos mesmos israelenses — de imediato se presume que afeta muitos dos partidários de Israel no exterior. Pilar Rahola visitou Israel dezenas de vezes, escreveu centenas de notas e artigos, nos quais condenou o terror islâmico e a patológica posição antiisraelense da esquerda européia, que lança uma baforada de anti-semitismo. Tem sido entrevistada e participou em milhares de emissões políticas na televisão, tendo-se feito credora de uma posição muito destacada nos meios de comunicação da Espanha e da Hispano-América. Entretanto, a presente entrevista para o jornal Haaretz é a primeira oportunidade na qual sua fascinante e admirável personalidade se desvela ante o público israelense. "Parece que depois de tantos anos sofrendo ataques, os israelenses ainda não se habituaram a que os defendam" — expressa Rahola. "Interessam-se muito mais naqueles que os criticam que aqueles que os defendem, mas na verdade, a mim isso não me afeta. Eu não faço o que faço para ser simpática ao público espanhol ou ao israelense, mas para defender os princípios nos quais creio". O que é que faz uma "catalã de boa família" dedicar uma considerável parte de sua vida para defender um país desconhecido e distante? "Isso tem uma explicação biográfica. Provenho de uma família que sofreu muito por suas idéias políticas, como outras tantas famílias da Espanha. O irmão do meu avô foi o primeiro condenado à morte nos tempos do regime de Franco. Minha família foi fiel à República Espanhola, que sustentava o direito dos catalães a um estado próprio. “Outros familiares foram membros do parlamento espanhol e atuaram na política local de Barcelona, sempre na tendência de esquerda do mapa político. Até hoje em dia luto contra a opressão das mulheres na Espanha machista. E me esforço para despertar a memória da Europa quando ela procura reprimi-la e se empenha em não dizer a verdade a uma sociedade que teme ouvir essa verdade". É certo que as diversas inflexões lingüísticas são um motivo que torna a repetir em seu discurso. A escolha das palavras não é casual: como doutora em filologia espanhola e catalã, Pilar Rahola está consciente do poderio do idioma e da força que tem a retórica dos meios na formação da opinião pública. "Não me vejo a mim mesma como alguém que defende Israel" — destaca ela — "mas como alguém que defende a verdade. Tenho muitas críticas a diversas resoluções do governo de Israel. Não me parece bem tudo o que Israel tem feito ao longo dos anos. Mas há uma diferença primordial, por um lado, entre a crítica racional ao governo, às diversas ações desse governo, e por outro lado os ataques descontrolados e criminosos à existência de Israel". Não só vítimas e verdugos Pilar, quando tinha vinte anos, começou a escrever sobre Israel não muito depois de sua primeira visita ao dito país. Depois postergou um pouco as lides jornalísticas (que incluíram também a cobertura, a partir de Jerusalém, da primeira guerra do Golfo) e o fez por causa da direção da editorial catalã "Portic" e da escrita de vários livros (pessoais e políticos). Posteriormente enfrentou uma carreira política não muito prolongada, mas cheia de atividade, como vice-prefeita da cidade de Barcelona. O retorno ao centro da cena pública na Espanha e Hispano-América, no que tange a Israel, teve lugar depois da operação "Muro Defensivo" na cidade de Jenin, durante o ano de 2002. "Os meios espanhóis explodiram de tanta ira e tanto ódio a Israel" — afirma —. "Nos jornais falou-se de genocídio, de limpeza étnica e da ruína total da sociedade palestina. Quem conhece a realidade de Israel não teve alternativa, senão dar um passo à frente e tomar partido. Não só me alistei do lado de Israel, como contra a manipulação midiática, contra a apresentação simplista de "maus e bons" e, principalmente, contra o niilismo do terror islâmico. Creio que os palestinos têm direito a um estado independente, mas também sustento que a melhor maneira de defender esse direito é condenar o terror, condenar a veneração da morte e a devastação e o ódio doentio a Israel como estado e como essência. Nos meios espanhóis e hispano-americanos só é possível encontrar vítimas — os palestinos, claro — e verdugos, os israelenses. Como jornalista e como mulher de esquerda, eu devo lutar contra essa mentira". — Teus amigos da esquerda espanhola dirão que são eles os que lutam pela verdade "A esquerda sempre proclamou que sua missão principal é melhorar a vida dos homens. Mas na esquerda muitos criaram uma versão grotesca e monstruosa dessa concepção do mundo. A ditadura de esquerda é irmã gêmea da ditadura de direita. Sempre me preocupei com o fascismo, mas não me preocupa menos o pensamento dogmático das pessoas de esquerda que negam o pensamento livre e o debate público e substituem as idéias pelos lemas". "Há na Espanha e na Hispano-América muitas pessoas de esquerda que acreditam defender a justiça atacando Israel, mas a maioria dessa gente não se preocupa em formular a si própria as árduas indagações sobre a real situação em Israel e pretende ser a dona de toda a verdade. De tal maneira que favorecem a mentira." “Quando se trata do conflito do Oriente Médio, a maioria dos intelectuais europeus deixa de pensar e não faz outra coisa que repetir clichês vazios. Esse antiisraelismo da esquerda e dos meios é um abafador do anti-semitismo. Não existe outro país que seja objeto de tais ódios e críticas infames. Nenhum outro país é alvo de reiteradas ameaças à sua existência por parte de outros estados integrantes da ONU, e o mundo cala. As causas são possíveis de encontrar tanto na história próxima quanto na distante". "O anti-semitismo clássico, cultural, na aparência foi rechaçado na Espanha pelas pessoas de esquerda, mas continua fluindo em nosso DNA ainda que na Espanha quase não haja judeus. Bebemos e comemos anti-semitismo em nossas cerimônias religiosas, nas escolas religiosas nas quais estudamos, em nosso folclore. Meu pai costumava me contar que quando era criança costumava andar de um lado para outro com um revólver de brinquedo para caçar judeus, e minha avó, das mulheres que a incomodavam costumava dizer que "são mais feias que um rabino", não obstante o fato dela não saber em absoluto que coisa é um rabino". "Mas não é esse anti-semitismo o que realmente me preocupa. Preocupa-me que em nome da solidariedade, da justiça e da busca pela liberdade, durante longos anos a esquerda européia haja justificado o antiisraelismo stalinista. Isso, por exemplo, é o que demarcou o caminho da esquerda espanhola. Essa esquerda concebeu Israel como inimigo, como invasor, como mão direita dos Estados Unidos, o Grande Satã. Os intelectuais que atualmente atacam Israel a partir da esquerda foram criados nesses moldes de pensamento". "A esquerda trai seus próprios princípios. Não luta contra as grandes ditaduras. Não luta pelos direitos dos verdadeiros oprimidos. É obsessiva em suas críticas aos Estados Unidos e a Israel, e ao mesmo tempo em que com eles se ocupa faz pouco caso, por exemplo, das centenas de milhares de mortos em Darfur. Essa é a verdadeira e grande vergonha da esquerda, não a situação em Israel". "A tudo isso se soma, é claro, o sentimento de culpa dos espanhóis pelo ocorrido nos tempos da expulsão dos judeus da Espanha e, em especial, no tempo da Segunda Guerra Mundial. E nosso modo aberrante de enfrentar esse sentimento é, precisamente, atacar Israel. Porque quanto mais malvado seja Israel, tanto menor será nossa culpa. Os ataques a Israel são a maneira de purgar nossa consciência e isso não admito de nenhuma forma". Anti-semitismo sem judeus Em Barcelona ocorrem numerosas manifestações nas quais rapazes e moças catalãs, tocados com kefias, gritam os lemas mais extremistas contra Israel e os Estados Unidos, duas democracias estáveis. Se eles não são stalinistas, por que irrompem então nas ruas? "Nas universidades de Barcelona existe uma corrente de opinião muito evidente. Não faz muito publicou-se uma pesquisa do Ministério da Educação da Espanha sobre a questão da imigração, na qual perguntou-se aos alunos do ensino secundário qual é a minoria mais odiada e mais ameaçadora. A maioria dos alunos escolheram responder que são os judeus, mesmo que jamais em seus dias de vida tenham visto um judeu. Esses são os alunos que ingressam nas universidades". "No passado os catalães se identificavam com Israel, pois era exemplo de um povo perseguido que depois de muitos anos conseguiu seu próprio Estado. Mas hoje em dia os jovens optam pela parte "fraca". A questão é por que esses jovens não pensam que dezenas de mortos no atentado contra um ônibus não são vítimas e por que pensam que o terrorista da jihad, que explodiu a si próprio, é um herói. Pois se se tratasse de um terrorista do ETA, do país basco, é claro que o teriam condenado. A resposta repousa no anti-semitismo que mamaram na infância, nos professores anti-americanos que têm nas universidades e nos meios que os envenenam contra Israel. Não há dúvidas de que essa atitude está muito na moda atualmente na Espanha". Se é questão de moda, é possível que o ódio a Israel também "passe de moda"? "Isso é o que procuramos fazer e por isso é que lutamos. Enquanto isso, para o mal dos males, aquele que não é antiisraelense imediatamente passa a ser suspeito. Muitas vezes perguntaram-me como posso ser uma mulher de esquerda e apoiar Israel? Minha resposta é sempre a mesma: Como pode alguém ser de esquerda e não criticar o terror de maneira acerba e clara? Como pode alguém pensar que a ideologia islâmica extremista contém em si a libertação? Como pode ser que todo o mundo árabe viva sob regimes ditatoriais? Como é possível denominar a tudo isso como uma concepção do mundo da esquerda?". Teu alinhamento com Israel excluiu-a do campo da esquerda na Espanha? Sentiu-se isolada ou ameaçada? O pensamento livre é um território isolado e hostil. Quando alguém segue seu caminho e não é arrastado pela corrente humana, fica mais exposto aos perigos. Recebo ameaças à minha vida e me difamam. Por meus ideais perdi prezados amigos, mas somente pelas idéias referidas a Israel. No passado formulei críticas muito ácidas à sociedade espanhola, à sua relação discriminatória para com a mulher, às horríveis touradas — que são quase sagradas na Espanha — e sobre diversas questões econômicas e sociais. Jamais algum amigo me deu as costas por isso. “Porém, quando cheguei à questão israelense, por essa paguei o preço". "Às vezes perguntam-me se não temo. No meu modo de ver, essa pergunta assinala o grande problema de nossa sociedade. Se tememos falar livremente, permitimos que o medo predomine sobre a razão. Se a Europa se rende aos seus medos, como ocorreu depois que foram publicadas as caricaturas de Maomé na imprensa dinamarquesa, ou depois do crime do cineasta holandês Theo Van Gogh — então triunfará o fundamentalismo”. Trad. Szyja Lorber Roi Bet Levi Haaretz. Tel Aviv. 20/10/2008
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