| Roleta Eleitoral |
| Colunas - Marcos Wasserman |
|
|||
| Escrito por Advogado Marcos Wasserman | ||||
| Seg, 30 de Março de 2009 | ||||
|
É bom recordar: Israel é uma clássica democracia lamentar, com todas as lacunas da democracia e com todos os defeitos do sistema parlamentarista. Este sistema funciona às maravilhas na Inglaterra, mas o mesmo não acontece em Israel, onde seus cidadãos estão muito longe, em sua permanente inquietude, de poder manter o estilo e o espírito britânicos que caracterizam o povo inglês.
No seus sessenta anos de existência, nunca, em Israel, um partido conseguiu obter maioria no Parlamento. Para tanto, necessitaria ganhar 61 cadeiras das 120 que o constituem. Portanto, para poder formar o Governo, sempre foi preciso formar coalizões com outros partidos.
Em poucas palavras, vejamos o que aconteceu agora em Israel neste último pleito eleitoral. Um dos problemas decorre do fato de que mais de trinta partidos se apresentaram nessa última eleição. A culpa é dos próprios parlamentares, dos vários exercícios anteriores, que jamais conseguiram votar uma lei para aumentar o quociente eleitoral. Daí o esfacelamento dos votos. As últimas eleições em Israel sofreram dois tipos de influência: uma, a externa, foi resultado do conflito na Faixa de Gaza. A outra, interna, resultou das brigas pessoais entre os candidatos sem plataformas políticas definidas e por culpa de parte da população árabe-israelense que, no auge do último conflito, saiu às ruas em apoio ao Hamás. A candidata Tzipi Livni, do partido Kadima, fundado por Ariel Sharon, teve grande votação em Tel Aviv, parte central do país, onde não caíram bombas nem foguetes, e Netanyahu, do partido Likud (de centro-direita) recebeu expressiva votação no sul e no norte do país, os que sofreram os ataques terroristas do Hizbolá e do Hamás. No frigir dos ovos, a todos surpreendeu o fortalecimento do partido "Israel Beiteinu" (Israel é Nossa Casa), do Sr. Liberman, que conseguiu 15 cadeiras no Parlamento, tornando-se, assim, o terceiro partido depois do Kadima, que obteve 30, e do Likud, com suas 28. No dizer do Sr. Liberman, seu maior eleitor foi o Rabino Ovadia Yossef, que ameaçou toda a população: se votassem nele, estariam fomentando o consumo de carne de porco e que iriam todos para o Inferno. Lembra os antigos tempos, especialmente nos países latino-americanos, quando os padrecos de uma certa igreja ameaçavam a massa ignara dos crentes com a condenação eterna se não votassem no candidato por eles indicado. O mesmo Sr. Liberman se fortaleceu em consequência do conflito com o Hamás na Faixa de Gaza. As manifestações de parte da comunidade árabe-israelense em favor do grupo palestino deram uma certa aura de legitimidade à sua perigosa plataforma de querer exigir, no futuro, a declaração de lealdade do cidadão ao país para aqueles que queiram assegurar seus direitos de cidadania. O que caracterizou esse último embate eleitoral? A candidata Tzipi Livni obteve mais votos que o candidato Netanyahu. No sistema parlamentarista israelense, o Presidente deve convocar o líder do partido com mais votos, dando-lhe um prazo regulamentar para formar o governo. Aparentemente, muito simples. Mas, segundo Netanyahu, não é bem assim. Acontece que ele tem, na realidade, muito mais condições aritméticas de formar um governo com a ajuda dos partidos mais à sua direita, no caso, o do próprio Sr. Liberman, e dos partidos religiosos. Os especialistas políticos e os meios de comunicação degustam o belíssimo banquete eleitoral-especulativo. Todo mundo faz as contas para ver quem pode mais e quem pode menos. Os jornais publicam todos os tipos de combinações políticas possíveis e imaginárias. Há quase que um impasse. Somente o Presidente de Israel, Shimon Peres, é que poderá, talvez, convencer os líderes dos dois partidos mais importantes, representados por Tzipi Livni e Netanyahu, a chegarem a um tipo de acordo. No passado, isto já ocorreu entre o partido Trabalhista e o Likud, que formaram um governo chamado "rotativo"; ficando as rédeas do governo, alternadamente e a cada dois anos, nas mãos dos respectivos líderes.
Do momento em que escrevo essas linhas até elas serem publicadas tudo pode acontecer no complicadíssimo terreiro eleitoral israelense. De momento, Tzipi Livni ganhou, mas, como dizem no Brasil: "ganhou mas não levou". Em outras palavras, no atual sistema eleitoral israelense, o cidadão vota num determinado partido, mas jamais poderá prever qual será o resultado definitivo da eleição e do governo que se constituirá.
Fala-se, hoje, da necessidade de uma urgente reforma do sistema eleitoral ou do próprio sistema governamental. Seria preferível o presidencialismo? Entrementes, as eleições em Israel são uma grande roleta. Marcos Wasserman é advogado em Israel, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. Artigo nº 231 - Publicado na Tribuna Judaica.
|
||||







































